A relação entre microbiota intestinal (MI) e fertilidade feminina vem ganhando destaque nos últimos anos, à medida que novos estudos mostram que tanto os microrganismos que habitam o intestino, quanto os do trato reprodutivo podem influenciar funções importantes como a ovulação, equilíbrio hormonal, inflamação e implantação embrionária. Esse conjunto de evidências têm levado pesquisadores e profissionais de saúde a considerar o papel da suplementação com probióticos como estratégia complementar para mulheres que desejam engravidar ou que enfrentam desafios reprodutivos, especialmente nos casos em que a causa da infertilidade não é totalmente clara. Embora ainda não exista um consenso definitivo, há dados clínicos que indicam benefícios em determinados contextos.
No caso da fertilidade feminina, o interesse pelos probióticos se deve ao fato de que um ambiente predominantemente colonizado por bactérias consideradas benéficas, como espécies de Lactobacillus, está associado à menor inflamação local, menor crescimento de microrganismos indesejados e melhores condições para a implantação do embrião. Esses microrganismos ajudam a manter um pH vaginal mais ácido, considerado protetor, e também parecem interagir com o sistema imunológico, favorecendo um ambiente mais estável e receptivo. Além disso, há indícios de que o intestino, quando equilibrado, exerce impacto positivo na regulação hormonal, no metabolismo e no estado inflamatório do organismo, fatores importantes para quem busca uma gestação saudável.
Entre os estudos recentes, um ensaio clínico randomizado, triplo-cego e placebo-controlado, conduzido com casais enfrentando infertilidade sem causa aparente, avaliou o uso da cepa Ligilactobacillus salivarius CECT5713. Os casais receberam a cepa diariamente por via oral durante 6 meses antes da fertilização in vitro. Os resultados mostraram taxas de gravidez significativamente maiores no grupo que utilizou o probiótico em comparação ao grupo placebo. O estudo levantou a hipótese da cepa probiótica aumentar a concentração vaginal de fatores de crescimento e melhorar a qualidade do sêmen. Apesar de envolver a suplementação do casal e não da mulher de forma isolada, o estudo chamou atenção por apontar melhora relevante em um grupo clinicamente desafiador.
Por outro lado, outro ensaio clínico duplo-cego avaliou o uso de probióticos intravaginais contendo Lactobacillus gasseri e Lactobacillus rhamnosus em mulheres com microbiota vaginal considerada em desequilíbrio antes do início da fertilização in vitro. Nesse caso, não houve diferença significativa entre probiótico e placebo na capacidade de melhorar o perfil microbiano, sugerindo que nem todas as estratégias ou combinações bacterianas produzem o efeito esperado. Esses achados reforçam que a resposta ao uso de probióticos depende de fatores como cepa utilizada, dose, via de administração, tempo de uso e características individuais.
Mesmo com resultados variados, a literatura aponta direções importantes. Quando o equilíbrio da microbiota é comprometido, o risco de inflamação aumenta e condições como vaginose bacteriana podem interferir nas taxas de gravidez. Mulheres que apresentam repetidas falhas de implantação ou abortamentos recorrentes têm sido objeto de estudos que buscam entender se o uso de probióticos pode melhorar os desfechos reprodutivos, e há revisões que consideram essa possibilidade promissora. Além disso, o papel da MI não deve ser subestimado — um intestino saudável contribui para a melhor absorção de nutrientes essenciais, modulação da glicemia, produção de substâncias anti-inflamatórias e até mesmo síntese de precursores hormonais. Assim, o uso de probióticos pode atuar de forma sistêmica, influenciando indiretamente os processos envolvidos na fertilidade.
A partir desse conjunto de evidências, observa-se que a suplementação com probióticos, quando bem indicada, pode ajudar a restabelecer os meios intestinal e vaginal e apoiar diversos aspectos da saúde reprodutiva. No entanto, é fundamental destacar que a suplementação não substitui outras intervenções necessárias, como correções hormonais, cuidados metabólicos, manejo de infecções e promoção de hábitos de vida saudáveis. Os profissionais de saúde devem considerar o histórico clínico, a presença de desequilíbrios microbianos e o perfil de cada paciente ao prescrever probióticos. O cenário atual indica que probióticos não devem ser vistos como solução isolada, mas como parte de um cuidado integrado que valoriza a saúde intestinal, o equilíbrio vaginal e a estabilidade imunológica, pilares importantes para a fertilidade feminina.
Referências
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