A eficácia de um probiótico depende diretamente de duas características fundamentais: viabilidade e estabilidade das cepas microbianas desde a formulação até o momento em que chegam ao trato gastrointestinal (TGI) do paciente. Probióticos são definidos como microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, proporcionam efeitos benéficos ao hospedeiro. Para que essa definição seja cumprida, é necessário que um número mínimo de cepas sobreviva ao processamento, ao armazenamento e ao ambiente ácido do estômago até o intestino, onde ocorre a interação com o organismo humano.
Um dos parâmetros mais usados para quantificar essa sobrevivência é a contagem de Unidades Formadoras de Colônias (UFC). Essa contagem indica o número de células viáveis capazes de se multiplicar e formar colônias, ou seja, aquelas que estão “vivas e ativas”. Em produtos probióticos, é usual considerar que níveis na casa de 10⁸–10⁹ UFC por dose são necessários para observar efeitos benéficos na saúde intestinal e geral, embora esse valor possa variar conforme a cepa, a indicação terapêutica e o perfil individual do paciente.
Entretanto, manter essas contagens durante toda a vida útil do produto é desafiador. As cepas probióticas são sensíveis ao calor, oxigênio, radicais livres e variações de pH. Processos como liofilização e secagem podem reduzir a concentração bacteriana se não forem cuidadosamente efetuados, e condições inadequadas de armazenamento — como altas temperaturas e umidade elevada — aceleram a perda de viabilidade, reduzindo as UFC disponíveis no momento do consumo.
Também é essencial considerar a biodisponibilidade no contexto probiótico. Aqui, a biodisponibilidade refere-se à capacidade destas células sobreviverem à acidez gástrica e às enzimas digestivas para alcançar o intestino delgado e o intestino grosso em número suficiente para exercer sua função. Mesmo formulações com alta contagem de UFC podem não garantir efeitos benéficos se uma fração significativa das células não atravessar essas barreiras fisiológicas.
Assim, mais do que compreender os conceitos técnicos envolvidos, é fundamental que médicos, nutricionistas e demais prescritores considerem criteriosamente o laboratório responsável pela manipulação das formulações probióticas. Avaliar se a instituição realiza controle rigoroso de qualidade, testes periódicos de estabilidade, garantia da contagem de UFC até o final da validade (e não apenas na data de fabricação), rastreabilidade das cepas utilizadas e adequação das condições de armazenamento são etapas essenciais para assegurar que o paciente receba, de fato, uma formulação eficaz, segura e o tratamento adequado.
Referências
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