As infecções urogenitais recorrentes — especialmente as infecções do trato urinário (ITU) e algumas alterações da microbiota vaginal (MV) — representam um problema frequente de saúde, particularmente entre mulheres adultas. Estima-se que mais da metade das mulheres apresente pelo menos um episódio de ITU ao longo da vida e que uma parcela desenvolva quadros recorrentes, caracterizados por dois ou mais episódios em seis meses ou três ou mais ao longo de um ano. Tradicionalmente, a prevenção dessas infecções tem se baseado no uso contínuo de antibióticos. Embora essa estratégia possa reduzir temporariamente a recorrência, o uso frequente dessas medicações está associado ao aumento da resistência bacteriana e às alterações no equilíbrio da microbiota intestinal (MI) e vaginal. Diante desse cenário, cresce o interesse por estratégias complementares capazes de restaurar o equilíbrio microbiano e reduzir a suscetibilidade a novos episódios infecciosos.
A MV saudável é predominantemente composta por bactérias do gênero Lactobacillus, que desempenham um papel fundamental na manutenção do equilíbrio do meio urogenital. Esses microrganismos produzem ácido lático e outras substâncias antimicrobianas que contribuem para manter o pH vaginal em níveis que dificultam a proliferação de microrganismos potencialmente patogênicos, como Escherichia coli, um dos principais agentes envolvidos nas ITUs. Além disso, os lactobacilos competem com patógenos por sítios de adesão na mucosa urogenital e podem formar uma barreira biológica que reduz a colonização por microrganismos indesejáveis. Quando ocorre uma redução dessas bactérias protetoras — situação comum após uso de antibióticos, alterações hormonais ou estresse fisiológico — o ambiente torna-se mais propício ao desenvolvimento de infecções recorrentes.
Nesse contexto, o uso de probióticos contendo cepas específicas de Lactobacillus tem sido investigado como uma estratégia para auxiliar na restauração do equilíbrio da microbiota urogenital. A proposta é que a administração dessas bactérias benéficas favoreça a ação dos microrganismos protetores no trato urogenital, reduzindo a adesão e a multiplicação de patógenos. Entre as cepas mais estudadas nesse campo destacam-se Lactobacillus rhamnosus GR-1 e Lactobacillus reuteri RC-14, que demonstraram capacidade de alcançar o ambiente vaginal e contribuir para a redução de microrganismos associados a infecções. Ensaios clínicos e revisões sistemáticas indicam que o uso dessas cepas pode ajudar a prolongar o intervalo entre episódios infecciosos e reduzir a frequência de recorrência em determinadas populações, especialmente em mulheres com histórico de ITUs recorrentes.
Além do impacto direto sobre a MV, estudos recentes sugerem que os probióticos também podem atuar por mecanismos adicionais. A modulação do sistema imune, por exemplo, pode fortalecer as barreiras naturais contra a colonização por patógenos, enquanto a interação entre MI e MV — conhecida como eixo intestino-urogenital — pode contribuir para a manutenção de um ambiente microbiano mais equilibrado. Outro ponto relevante é o perfil de segurança dos probióticos, que apresentam boa tolerabilidade quando utilizados de forma adequada, característica importante para estratégias de prevenção que exigem períodos mais prolongados de uso.
Dessa forma, embora os probióticos não substituam as abordagens terapêuticas convencionais, seu uso como estratégia complementar na prevenção de infecções urogenitais recorrentes vem recebendo atenção crescente na literatura científica. A integração entre evidência clínica, escolha criteriosa de cepas e garantia de qualidade das formulações representa um passo importante para que os profissionais de saúde possam incorporar o conhecimento sobre microbiota de maneira segura e baseada em evidências no cuidado à saúde urogenital.
Referências
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