Sintomas gastrointestinais (GI) são uma queixa frequente entre os praticantes de esportes de alto rendimento (ou endurance), especialmente durante competições como corridas de rua e provas de triathlon. Náuseas, vômitos, dor abdominal, flatulência e diarreia podem comprometer não apenas o desempenho, mas também a experiência esportiva e a adesão ao treinamento. Cerca de 70% dos praticantes de esportes de resistência relatam sentir algum grau de desconforto gastrointestinal durante ou após exercícios prolongados, especialmente em condições de maior intensidade e duração.
Do ponto de vista fisiológico, o exercício intenso promove uma redistribuição do fluxo sanguíneo, que é desviado das vísceras para os músculos esqueléticos e o coração. Essa redução do fluxo sanguíneo intestinal, associada ao estresse térmico e mecânico, pode levar ao aumento da permeabilidade intestinal seguida por uma resposta inflamatória. Como consequência, observa-se o surgimento de sintomas GI indesejados. Nesse contexto, estratégias nutricionais que visem a integridade da barreira intestinal têm ganhado destaque — entre elas, o uso de probióticos.
Os probióticos têm sido investigados como moduladores da microbiota intestinal (MI), com potencial para melhorar a função de barreira, reduzir processos inflamatórios e atenuar a resposta ao estresse induzido pelo exercício. Ensaios clínicos randomizados, duplo-cego e controlados por placebo conduzidos nos últimos anos trouxeram resultados promissores, embora ainda heterogêneos.
Em homens triatletas, corredores e ciclistas, por exemplo, um suplemento multi cepas (B. bifidum W23, B. lactis W51, Enterococcus faecium W54, L. acidophilus W22, L. brevis W63 e Lactococcus lactis W58) foi administrado em dose equivalente a 10¹⁰ UFC ao dia. Após a ingesta por 14 semanas, a suplementação foi associada à melhora significativa nos escores de sintomas GI e em parâmetros do meio intestinal (redução da concentração de zonulina nas fezes — indicando uma possível melhora da integridade da barreira intestinal — e do marcador inflamatório TNF-α).
Em um ensaio clínico conduzido com corredores submetidos a uma maratona, a suplementação por 28 dias com uma formulação multi cepas (composta por L. acidophilus CUL60, L. acidophilus CUL21 , B. bifidum CUL20 e B. animalis subsp. Lactis CUL34) foi associada à diminuição progressiva da prevalência de sintomas como náuseas, flatulência e diarreia, além de menor gravidade dos sintomas durante a prova — especialmente em sua fase final —, efeito que não foi observado no grupo placebo.
Por outro lado, uma revisão sistemática reuniu ensaios clínicos realizados com atletas de diferentes modalidades e os respectivos desconfortos GI durante o treinamento, a competição e eventos isolados. Esse trabalho ressaltou que, apesar das evidências sugestivas de redução na frequência e severidade dos sintomas GI, ainda não há consistência suficiente para recomendações específicas de probióticos para esse público.
Diante do cenário atual, a utilização de probióticos em praticantes de esportes de endurance pode ser interpretada como uma abordagem promissora, porém ainda em consolidação. A escolha de cepas com evidência clínica, o tempo adequado de uso e a avaliação individual dos sintomas são fatores essenciais para otimizar os resultados.
Referências
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- Pugh, J. N., Sparks, A. S., Doran, D. A., Fleming, S. C., Langan-Evans, C., Kirk, B., Fearn, R., Morton, J. P., & Close, G. L. (2019). Four weeks of probiotic supplementation reduces GI symptoms during a marathon race. European journal of applied physiology, 119(7), 1491–1501. https://doi.org/10.1007/s00421-019-04136-3
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